
Chegou atordoado em casa.
Sabia que sua esposa percebera a sua ausência emocional nos últimos meses. Porém, nos últimos dias o cotidiano tinha se tornado insuportável.
A indiferença dele, o silêncio dela, a filha que só desenhava e em seus desenhos as pessoas não possuíam bocas.
Joana tinha apenas seis anos, mas uma grande sensibilidade para perceber que estava em um lar desfeito.
A empregada anunciava o jantar.
O marido preferia doses de uísque, a esposa preferia um chá de camomila e a pequena Joana sentou a mesa sozinha, aliás, colocou duas bonecas nas cadeiras vazias e com elas conseguia ter um jantar agradável.
Os pais não percebiam que a ausência de ambos causava um grande vazio no dia a dia da menina, que estava tendo problemas na escola, por excesso de sensibilidade. Chorava por tudo, e com isso os seus coleguinhas zombavam dela, chamando-a de Maria chorona.
Os pais foram chamados na escola, mas esquivavam-se, ambos se diziam muito ocupados. Ele médico, ela jornalista. Mas tinham tempo livre sim, não queria compartilhar suas frustrações.
A mãe lia o jornal, o pai assistia a um filme, quando Joana falou: Quero ser adotada.
A frase da menina deixou seus pais estupefatos.
- Mas por quê? Indagou a mãe
A menina com a voz mansa e chorosa respondeu:
- Quero morar numa casa onde as pessoas conversem, sorriam se abracem igual na casa das minhas amigas. Cansei de conversar com minhas bonecas, elas também não falam como vocês.
O silêncio da casa estava sufocando os ouvidos da pequena Joana.
A mãe tonta com a situação correu para abraçar a menina, enquanto ela tentava arrumar uma malinha.
- Não faça isso, filha. Pediu a mãe.
- Vou esperar três dias, ta mãe? – Respondeu Joana.
A mãe e o pai sentaram para conversar, uma conversa franca.
No dia seguinte, o pai saiu de casa. Despediu-se da menina, prometendo vê-la em todos os finais de semana.
Semanas depois,uma certa harmonia pairava no ar.
A mãe conversava mais com a filha, almoçavam juntas, jantavam, faziam tarefas escolares, e nos finais de semana o pai de Joana era seu grande companheiro.
A pequena Joana entendeu como a paz é primordial e os pais concluíram que a sapiência infantil é necessária para a falta de coragem dos adultos.